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"Se eu tivesse pernas, eu te chutaria": anotações sobre uma ressaca fílmica

  • Foto do escritor: Juliana Gusman
    Juliana Gusman
  • 6 de jan.
  • 3 min de leitura

A Linda de Rose Byrne é uma anti-Ofélia. Bem que ela tenta se afogar para escapar do aprisionamento discursivo e material que lhe confina ao posto amargo (e exaustivo) de mãe ruim. A personagem shakespeariana atira-se em um rio por não encontrar, para seus anseios latentes, “lugar ou palavra”, como diria Maria Rita Kehl. A personagem bronsteiniana, por sua vez, choca-se inutilmente contra as ondas bravas da maré noturna, mas até elas, após sucessivas demonstrações de desprezos humanos, a rejeitam e cospem de volta. O único descanso possível é o fim do filme. Mas é verdade que Linda, como psicanalista, talvez tenha mais ferramentas para lidar com as artimanhas da subjetividade feminina do que Ofélia, after all. Sua sobrevivência torna Se eu tivesse pernas, eu te chutaria um filme otimista?


Se a protagonista consegue, minimamente, verbalizar e sistematizar as suas angústias num divã inóspito, ela, de fato, não sabe como decifrar a própria filha, que se recusa a comer. Talvez por isso Linda devore tudo compulsivamente. É fome por vingança. A criança chutável e invisível reclama, incomoda e berra do extracampo – Bronstein não quer que nos compadeçamos facilmente pela sua condição adoecida ou por possíveis charmes infantis. O marido, como se autoprojeta a masculinidade dominante, é a racionalidade julgadora em estado puro: uma voz desencarnada que não se imiscui na sujeira do cuidado alheio. O nosso pacto ético, político e háptico (e de uma câmera tátil, sempre muito próxima) é com a mãe que tenta escapar dos buracos metafóricos e literais de sua vida: da cratera que se abre no teto do apartamento, forçando-a a se mudar para um quarto de hotel fodido; da ferida na barriga da menina que se alimenta maquinalmente por meio de um tubo, o segundo cordão umbilical; ou da menção sugestiva e assombrosa que tais orifícios fazem ao ducto vaginal que a pariu: Linda deveria tê-la abortado em vez de abdicar da primeira gravidez?, pergunta-se, sem qualquer vestígio de culpa, diante do abismo.


Em seus constantes (e às vezes concretos) atropelos – aqui, nem o hamster, fatalmente acidentado, é boa gente –, Linda é definida pela filha, logo na primeira cena, como “strechable” – flexível, alongável, maleável. Byrne, a seu modo, também revela qualidades elásticas – ela estende e dilata microscopicamente as linhas do seu rosto para tramar universos inteiros.


Na sala de cinema, a arquitetura do som – que não cessa, pois não há silêncios ou vácuos nas alucinações maternas – amplifica angústias, ressoadas coletivamente em risos contidos. O horror e o humor, que desestabilizam a ordem pela via do grotesco, têm lá as suas afinidades incômodas.


No carro, após a sessão, senti o queijo engolido numa só bocada por Linda formando nós na minha garganta. A tal da mágica empática da imagem da qual fala Jaine Gaines, às vezes, é uma maldição. Meu companheiro, o décimo de uma família de onze irmãos, desempoeirou do inconsciente uma crise de pânico e impotência da sua mãe, que uma vez se atirou no chão de casa por puro cansaço. Leonina e jovem viúva, ela retomou o prumo rápido. Não havia fim de filme para lhe resgatar da sina cíclica do trabalho reprodutivo ininterrupto.


O encontro com Se eu tivesse pernas, eu te chutaria sucede minha leitura de Maternidade, de Sheila Heti, e o lançamento da série All her fault (título que ressoa a frase cínica mil vezes recitada no filme de Bronstein), criada por Minkie Spiro. Há de se repesar, os murmúrios feministas me sugerem, a gravidade dos arrependimentos. Sem pernas e sem pesares, talvez Linda pudesse voar.

 
 
 

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