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"Pai Mãe Irmã e Irmão" (2025): a farsa libertária e uma aposta na mentira

  • Foto do escritor: Juliana Gusman
    Juliana Gusman
  • 13 de abr.
  • 3 min de leitura

O novo filme de Jim Jarmusch, Pai Mãe Irmã Irmão (2025), tem estrutura e tom de crônica: a trama cotidiana se contamina com a sujeira familiar e com a poeira fina de hipocrisias inutilmente varridas para debaixo dos tapetes metafóricos das nossas convenções. São três episódios a princípio independentes, que também se infectam entre si de maneiras insuspeitas.

 

No primeiro ato, o diretor introduz tanto o andamento moroso e os silêncios intervalares das intimidades puídas – sustentados pela sutileza dramática de Adam Driver e Mayim Bialik, na pele dos filhos distantes de Tom Waits, autoexilado no nordeste gélido dos Estados Unidos –, como os elementos simbólicos e formais que irão ecoar-se nas outras seções do tríptico, passadas em Dublin e Paris. Testemunhamos as interações das manobras em câmera lenta de skatistas na rua, da combinação inadvertida de roupas cor de carmim – entre pessoas, quase sempre, contrastantes entre si –, das discussões sobre a legitimidade de propor brindes não-etílicos, de uma expressão idiomática britânica, “and Bob is your uncle”, que expressa algum otimismo em relação às enunciações que lhe antecedem, ou do uso de ângulos zenitais que precisam a frigidez coreográfica do constrangimento mútuo. Com tais recorrências, mais do que apenas sugerir a universalidade dos abismos domésticos, Jarmusch nos convida a decifrar outras repetições vulcânicas, que escorrem discretas e destrutivas das bordas suas imagens plácidas.

 

O personagem alegórico e sem nome de Tom Waits é o anti-patriarca, que falha com a hegemonia masculinista do homem provedor. Cínico, aproveita-se das pechas da velhice para hiperbolizar fragilidades que lhe garantem se não o amor, ao menos o cuidado culposo dos filhos que lhe fornecem, sem saber, as regalias de uma vida financeiramente plena: do Rolex que esquece de esconder, junto a outros sinais da sua riqueza vampirescamente acumulada, sob a manga, à puta de luxo a quem, sempre que pode, paga um bom jantar. La mére, interpretada por Charlotte Rampling no fragmento irlandês da narrativa, também é a antítese da feminilidade normativa: como fez Virgínia Woolf, aniquilou o anjo do lar para converter-se em escritora, ofício que deve ter exercido com mais afinco do que jamais dedicou à maternagem de suas filhas, Tim (Cate Blachette) e Lilith (Vicky Krieps). No chá anual que realiza em sua casa, também encena um interesse protocolar em relação às conquistas da primogênita e ao fracasso mascarado e inaudito da caçula – ao contrário do Rolex de Waits, o seu relógio, como tudo que lhe cabe, seja a carreira de influencer, a bolsa de marca ou a cor do seu cabelo rosa-claro, é falso.

 

Dito isto, porque, então, acreditar na vocação altruística do casal punk, nômade e trambiqueiro que deixou órfãos os gêmeos sem eira nem beira vividos por Indya Moore e Luka Sabbat? Falecidos em um acidente com um bimotor no “Cu do Judas” – outra expressão-bumerangue que alinhava as três histórias –, a dupla era especialista em forjar documentos falsos e devia três meses de aluguel, cobrados postumamente por uma proprietária firme, mas amaciada pelo pesar de Billy e Skye quando decidem despedir-se do apartamento da infância. Se a memória dos filhos é lisonjeira e enaltecedora, assim como o afeto que nutrem entre si, isso só me faz dobrar a aposta da radicalidade da farsa apoteótica de Jarmusch: diria que, para esquivar-se das exigências opressoras da família nuclear, vale tanto a apatia calculada dos sobreviventes, quanto o desaparecimento programado de falsos mortos. A última reiteração tática é a prova dos nove. Billy herda do pai o Rolex que pesa os pulsos de quem engorda grandes mentiras. Neste filme ácido, exalto a revolta camaleônica de todos os desacomodados e não acredito em ninguém.  



 
 
 

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